A presença da inteligência artificial no cinema já não se limita a tarefas técnicas, como edição ou efeitos visuais, mas começa a influenciar diretamente a própria estrutura criativa das obras. Estúdios e plataformas passaram a adotar sistemas de IA em roteirização, pré-visualização e até na criação de personagens digitais, o que acelera processos, reduz custos e amplia possibilidades narrativas, mas também levanta questionamentos sobre autoria e originalidade.

Ao mesmo tempo, o avanço dessas tecnologias intensificou o debate entre profissionais da indústria, incluindo diretores, roteiristas e atores, que divergem sobre os limites éticos do uso da IA. Enquanto parte do setor vê a inovação como uma evolução inevitável do audiovisual, outros alertam para riscos de padronização criativa e substituição de trabalho humano, tornando 2026 um ano-chave na definição de novas regras e acordos para o uso da tecnologia no cinema.

Acordo entre A24 e Google acelera o uso da IA

 

O estúdio A24, responsável por produções como Marty Supreme e Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, firmou uma parceria com a Google para o desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial aplicadas ao cinema. O acordo, estimado em cerca de US$ 75 milhões (aproximadamente R$ 388 milhões), garante à produtora acesso à infraestrutura e à pesquisa da DeepMind, ampliando suas possibilidades técnicas em diferentes etapas da produção audiovisual.

Segundo apuração do site Seu Dinheiro, o projeto não é exclusivo e não concede ao Google acesso ao catálogo ou ao acervo de conteúdos da produtora. O líder de tecnologia do estúdio, Scott Belsky, destacou que o objetivo da parceria é explorar aplicações criativas da IA no cinema, sem comprometer a autonomia da A24 sobre suas propriedades intelectuais, em um movimento que reforça a crescente integração entre tecnologia e indústria audiovisual.

Academia estabelece limites para o Oscar

 

A Academy of Motion Picture Arts and Sciences também passou a estabelecer limites mais claros para o uso da inteligência artificial em suas premiações. Para a edição de 2026, a entidade definiu que apenas atuações e roteiros criados por seres humanos poderão disputar as categorias correspondentes, preservando o reconhecimento do trabalho artístico nessas áreas. A decisão reflete a preocupação crescente da indústria em equilibrar inovação tecnológica com a valorização da criatividade humana.

Apesar dessa restrição, a Academia não proibiu o uso de IA em outras etapas da produção cinematográfica, como efeitos visuais, edição ou pós-produção. Segundo informou o Metrópoles, a instituição mantém o entendimento de que a utilização dessas ferramentas, por si só, não prejudica as chances de indicação de um filme. Em vez disso, a avaliação considera o nível de autoria criativa humana envolvido em cada obra, buscando adaptar as regras da principal premiação do cinema às transformações tecnológicas que vêm remodelando o setor.

Diretores divididos sobre o tema

 

O avanço da IA expõe posições bastante distintas dentro da própria indústria. Durante o South by Southwest, em março, Steven Spielberg reafirmou que nunca utilizou inteligência artificial em nenhum de seus filmes e defendeu o valor do trabalho humano na sala de roteiristas, de acordo com reportagem do portal Sapo. Já Timur Bekmambetov, diretor de “O Procurado” e do remake de “Ben-Hur”, vem explorando a tecnologia para viabilizar produções com orçamentos bem menores, com equipes reduzidas, segundo a Exame. Charles Rivkin, presidente da Motion Picture Association, adotou um tom intermediário durante a CinemaCon, ao defender que a IA pode fortalecer, e não substituir, o trabalho criativo dos profissionais do setor, conforme publicou a Rolling Stone Brasil.

Festivais e produções já exploram o novo cenário

 

O uso da tecnologia já resulta em obras concretas. Em fevereiro, o Festival Mundial de Cinema com Inteligência Artificial (WAIFF) reuniu, em São Paulo, 38 produções finalistas realizadas com o apoio de diferentes ferramentas de IA, distribuídas entre os gêneros animação, ação, fantasia e documentário, informou o jornal Estado de Minas. O evento também discutiu episódios controversos, como um vídeo com atores digitais de Brad Pitt e Tom Cruise, criado com o gerador de imagens Seedance 2.0, da empresa chinesa ByteDance, que viralizou nas redes antes de ser identificado como produto sintético.

O cenário reforça que a inteligência artificial já não é uma possibilidade distante para o cinema, mas uma ferramenta em uso real, com impactos que vão da redução de custos de produção até discussões sobre direitos autorais, emprego e critérios de premiação. A tendência é que o tema continue no centro das conversas ao longo da próxima temporada de festivais e premiações do setor.

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