Debate sobre novas regras para serviços de vídeo sob demanda expõe conflito entre incentivo à produção nacional, interesses das plataformas e o papel do Estado na indústria cultural.
O debate sobre a regulação dos serviços de streaming no Brasil segue mobilizando o Congresso Nacional e ganhou novos capítulos ao longo de 2026, com a tramitação de duas propostas principais em análise paralela. O PL 2331/2022 e o PL 8889/17 têm como objetivo estabelecer regras para a atuação de plataformas como Netflix, Disney+ e YouTube, especialmente no que diz respeito à contribuição financeira para o fortalecimento do setor audiovisual brasileiro.
O que prevê o projeto de regulação do streaming
O texto que retornou ao Senado como substitutivo da Câmara estabelece o pagamento da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine) pelas empresas de streaming, com alíquotas que variam de 0,1% a 4% conforme o faturamento anual. A proposta também cria cotas progressivas de conteúdo nacional nos catálogos, começando em 2% no primeiro ano após a publicação da lei e chegando a 10% no sétimo ano. Estão isentas plataformas pequenas, com receita anual de até R$ 4,8 milhões ou menos de 200 mil usuários, conforme detalhou o Senado Notícias.
Outro ponto sensível do projeto é a chamada janela de exibição: filmes só poderiam chegar ao streaming nove semanas depois da estreia nos cinemas, uma medida pensada para proteger as salas de exibição.
Cotas de conteúdo nacional dividem opiniões
A audiência pública do Conselho de Comunicação Social do Congresso, realizada em junho, expôs a divergência entre plataformas e representantes do setor audiovisual independente. Segundo a Motion Picture Association, entidade que representa os grandes estúdios, o Brasil já é o segundo maior consumidor de vídeo sob demanda do mundo, e uma regulação considerada intervencionista poderia reduzir investimentos e criar barreiras de entrada para pequenas plataformas, das quase cem que operam no país, de acordo com o Portal da Câmara.
Do outro lado, entidades como o Sindicato Interestadual da Indústria Audiovisual defendem um percentual mínimo de 10% de conteúdo nacional nos catálogos, argumento reforçado pela relatora do projeto na Câmara, deputada Jandira Feghali. Para ela, o texto ainda é insuficiente tanto nos percentuais de cobrança quanto na valorização da produção independente brasileira, segundo apurou a Agência Câmara Notícias.
Investimento publicitário do governo gera contradição
Enquanto o Executivo reforça a regulação dos serviços de streaming como uma das pautas prioritárias para 2026, o tema ganha uma camada adicional de complexidade ao ser analisado sob a ótica do financiamento público. Dados levantados pela Agência Pública indicam que o governo federal destinou mais de R$ 17,9 milhões em 2025 a campanhas publicitárias veiculadas em plataformas que estão no centro do debate regulatório, como serviços de streaming e vídeo sob demanda.
Para especialistas ouvidos pela reportagem, essa relação cria uma espécie de tensão institucional, já que o Estado atua simultaneamente como regulador do setor e como um de seus principais anunciantes. Na avaliação desses analistas, essa dupla posição pode enfraquecer o discurso de urgência por maior intervenção, ao mesmo tempo em que evidencia a dependência mútua entre poder público e grandes plataformas digitais no ecossistema de mídia contemporâneo.
Próximos passos no Congresso
Fontes consultadas:
- https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/01/29/projeto-que-regulamenta-e-tributa-servicos-de-streaming-retorna-ao-senado
- https://www.camara.leg.br/noticias/1059074-representantes-do-audiovisual-defendem-incentivos-para-producoes-nacionais-na-regulacao-do-streaming
- https://www.camara.leg.br/noticias/1108225-relatora-de-projeto-que-regulamenta-streaming-quer-valorizar-mais-producao-independente-brasileira/
- https://apublica.org/2026/03/pl-do-streaming-governo-investe-r-24-milhoes-em-anuncios-em-apps/