Hugo Galvão de França Filho, empresário e especialista em marketplaces e crescimento de vendas online, observa que, há pouco tempo, receber um pedido de e-commerce no mesmo dia já era considerado sinal de eficiência. Hoje, uma parcela crescente de consumidores espera receber produtos em minutos, não em horas, e essa mudança de expectativa está forçando o varejo brasileiro a repensar completamente sua estrutura logística. O fenômeno tem nome, quick commerce, e vem ganhando espaço muito além do delivery de comida, onde nasceu.
Essa corrida pela entrega ultrarrápida representa uma das transformações mais exigentes do e-commerce atual. Para ele, o consumidor não está apenas pedindo velocidade por impaciência, está redefinindo o que considera um serviço de qualidade, e empresas que não acompanharem esse padrão correm o risco de perder espaço para concorrentes mais ágeis.
O que realmente diferencia o quick commerce do e-commerce tradicional?
O quick commerce, também chamado de q-commerce, se caracteriza por entregas realizadas normalmente em até sessenta minutos, um prazo praticamente impossível de cumprir com a estrutura logística tradicional baseada em grandes centros de distribuição distantes dos centros urbanos. Para viabilizar essa velocidade, surgiram as chamadas dark stores, pequenos centros de distribuição fechados ao público, posicionados estrategicamente dentro das cidades e otimizados exclusivamente para separação e envio rápido de pedidos.
Hugo Galvão de França Filho explica que a diferença central não está apenas na velocidade prometida ao cliente, mas em toda a lógica de operação por trás dela. Segundo ele, competir nesse modelo exige repensar onde o estoque fica fisicamente armazenado, e não apenas otimizar o site ou aplicativo de vendas, já que a distância entre produto e consumidor passa a ser o fator decisivo de toda a experiência de compra.
Por que esse modelo cresce tão rápido no Brasil?
Projeções do setor indicam que a participação de pedidos despachados a partir de dark stores deve continuar em expansão acelerada nos próximos anos, acompanhando um comportamento do consumidor cada vez mais impaciente com prazos de entrega longos. Dados recentes mostram que quase metade dos carrinhos abandonados em e-commerce no Brasil tem como motivo justamente a insatisfação com o valor ou o prazo do frete oferecido.
Para Hugo Galvão, esse dado por si só já justifica a atenção que empresas de todos os portes vêm dando à logística de última milha. Ele reforça que o consumidor brasileiro amadureceu rapidamente em relação às expectativas de entrega, acostumado por grandes marketplaces a prazos cada vez mais curtos, o que elevou o padrão mínimo aceitável mesmo para negócios menores que não têm a mesma escala operacional dos grandes players.
Os desafios escondidos por trás da velocidade
Apesar do apelo comercial evidente, estruturar uma operação de entrega ultrarrápida é significativamente mais caro e complexo do que manter um modelo tradicional de e-commerce. É preciso multiplicar pontos de estoque espalhados pela cidade, integrar sistemas em tempo real entre pedidos, veículos e disponibilidade de produto, além de coordenar entregadores com rotas otimizadas constantemente.
Hugo Galvão de França Filho destaca que o custo da última milha, a etapa final de entrega até a porta do consumidor, costuma ser a parte mais cara e mais complexa de toda a cadeia logística. Ele observa que empresas que decidem entrar nesse modelo sem planejamento adequado correm o risco de comprometer a margem de lucro justamente na tentativa de conquistar o cliente pela velocidade, transformando um diferencial competitivo em um problema financeiro.
Tecnologia como pré-requisito, não como diferencial opcional
Nenhuma operação de entrega rápida funciona sem uma base tecnológica sólida por trás. Sistemas de gestão de estoque, roteirização automática de entregas e visibilidade em tempo real sobre cada pedido deixaram de ser recursos avançados e passaram a ser pré-requisitos básicos para qualquer negócio que queira competir nesse novo padrão de conveniência.
Hugo Galvão reforça que essa exigência tecnológica tende a acelerar a profissionalização do varejo digital brasileiro como um todo. Segundo ele, empresas que investem cedo em integração entre plataforma de vendas, estoque e logística constroem uma vantagem competitiva difícil de ser copiada rapidamente pela concorrência, já que exige tempo, investimento e maturidade operacional para funcionar de forma consistente.
Um movimento que deve se espalhar para novos setores
Embora o quick commerce tenha nascido no delivery de comida, a tendência é que esse padrão de entrega se espalhe gradualmente para outras categorias de consumo, como farmácias, supermercados e produtos de conveniência do dia a dia. Consumidores que se acostumam com entregas em minutos em um segmento tendem a exigir a mesma velocidade em outros tipos de compra.