Regulação do streaming avança no Congresso e reacende disputa entre governo, plataformas e setor audiovisual

Diego Velázquez
Diego Velázquez
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Regulação do streaming avança no Congresso e reacende disputa entre governo, plataformas e setor audiovisual

Debate sobre novas regras para serviços de vídeo sob demanda expõe conflito entre incentivo à produção nacional, interesses das plataformas e o papel do Estado na indústria cultural.

O debate sobre a regulação dos serviços de streaming no Brasil segue mobilizando o Congresso Nacional e ganhou novos capítulos ao longo de 2026, com a tramitação de duas propostas principais em análise paralela. O PL 2331/2022 e o PL 8889/17 têm como objetivo estabelecer regras para a atuação de plataformas como Netflix, Disney+ e YouTube, especialmente no que diz respeito à contribuição financeira para o fortalecimento do setor audiovisual brasileiro.

As propostas buscam criar mecanismos de financiamento e incentivo à produção nacional, o que inclui possíveis taxas ou cotas de investimento em conteúdo local. Por outro lado, o avanço desses projetos também intensifica o debate entre governo, empresas de streaming e representantes da indústria audiovisual, que divergem sobre o impacto das medidas na competitividade do mercado e na diversidade de conteúdos oferecidos ao público.

O que prevê o projeto de regulação do streaming

O texto que retornou ao Senado como substitutivo da Câmara estabelece o pagamento da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine) pelas empresas de streaming, com alíquotas que variam de 0,1% a 4% conforme o faturamento anual. A proposta também cria cotas progressivas de conteúdo nacional nos catálogos, começando em 2% no primeiro ano após a publicação da lei e chegando a 10% no sétimo ano. Estão isentas plataformas pequenas, com receita anual de até R$ 4,8 milhões ou menos de 200 mil usuários, conforme detalhou o Senado Notícias.

Outro ponto sensível do projeto é a chamada janela de exibição: filmes só poderiam chegar ao streaming nove semanas depois da estreia nos cinemas, uma medida pensada para proteger as salas de exibição.

Cotas de conteúdo nacional dividem opiniões

A audiência pública do Conselho de Comunicação Social do Congresso, realizada em junho, expôs a divergência entre plataformas e representantes do setor audiovisual independente. Segundo a Motion Picture Association, entidade que representa os grandes estúdios, o Brasil já é o segundo maior consumidor de vídeo sob demanda do mundo, e uma regulação considerada intervencionista poderia reduzir investimentos e criar barreiras de entrada para pequenas plataformas, das quase cem que operam no país, de acordo com o Portal da Câmara.

Do outro lado, entidades como o Sindicato Interestadual da Indústria Audiovisual defendem um percentual mínimo de 10% de conteúdo nacional nos catálogos, argumento reforçado pela relatora do projeto na Câmara, deputada Jandira Feghali. Para ela, o texto ainda é insuficiente tanto nos percentuais de cobrança quanto na valorização da produção independente brasileira, segundo apurou a Agência Câmara Notícias.

Investimento publicitário do governo gera contradição

Enquanto o Executivo reforça a regulação dos serviços de streaming como uma das pautas prioritárias para 2026, o tema ganha uma camada adicional de complexidade ao ser analisado sob a ótica do financiamento público. Dados levantados pela Agência Pública indicam que o governo federal destinou mais de R$ 17,9 milhões em 2025 a campanhas publicitárias veiculadas em plataformas que estão no centro do debate regulatório, como serviços de streaming e vídeo sob demanda.

Para especialistas ouvidos pela reportagem, essa relação cria uma espécie de tensão institucional, já que o Estado atua simultaneamente como regulador do setor e como um de seus principais anunciantes. Na avaliação desses analistas, essa dupla posição pode enfraquecer o discurso de urgência por maior intervenção, ao mesmo tempo em que evidencia a dependência mútua entre poder público e grandes plataformas digitais no ecossistema de mídia contemporâneo.

Próximos passos no Congresso

Com dois textos em tramitação e divergências ainda em aberto, o debate legislativo segue concentrado em pontos técnicos considerados decisivos para o modelo de regulação. Entre eles estão a forma de cálculo da Condecine e a possibilidade de permitir que investimentos diretos em produção audiovisual sejam usados para abater parte da tributação, o que divide tanto parlamentares quanto representantes do setor. Nesse cenário, o Senado deve avançar na análise do substitutivo enquanto a Câmara dos Deputados mantém a discussão sobre o PL 8889/17, visto por parte dos congressistas como o texto mais amadurecido entre as propostas em debate.

O desfecho da disputa tende a redefinir as bases de financiamento e distribuição do cinema brasileiro nos próximos anos, influenciando diretamente a relação entre produções nacionais e plataformas globais. Ao mesmo tempo, o processo ocorre sob crescente atenção internacional, incluindo pressões de representantes comerciais e diplomáticos dos United States, que acompanham de perto o impacto das possíveis regras sobre empresas sediadas no país.

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