Yuri Silva Portela, pós-graduado em Geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, frequentemente encontra um perfil afetivo lacunoso no envelhecimento masculino em sua prática clínica e nas comunidades do sertão de Quixadá. O pai que envelheceu sendo provedor, presente de formas práticas, mas distante nas dimensões emocionais, chega à terceira idade carregando uma solidão específica que não encontra linguagem fácil para se expressar. Afinal, não é a solidão da viuvez, nem a do isolamento geográfico, mas a solidão de quem nunca aprendeu a pedir cuidado e que agora precisa dele de formas que nunca imaginou.
A partir deste artigo, você vai entender o que o pai idoso carrega em silêncio e como o cuidado humanizado pode chegar até ele. Leia com atenção!
O que o envelhecimento masculino tem de específico e invisível?
Homens idosos adoecem de formas diferentes das mulheres e buscam cuidado com padrões distintos que o sistema de saúde raramente contempla adequadamente. Isso se deve porque a socialização masculina tradicional, que valoriza resistência, autossuficiência e discrição diante da dor, produz idosos que minimizam sintomas, atrasam diagnósticos e resistem a tratamentos que percebem como admissão de vulnerabilidade. Essa resistência, é o resultado de décadas de aprendizado sobre o que significa ser homem.
Yuri Silva Portela frisa que o pai idoso frequentemente chega à consulta médica depois que os sintomas já não podem mais ser ignorados. Nesse intervalo entre o início do problema e a busca por ajuda, condições tratáveis progrediram, oportunidades de intervenção precoce foram perdidas e o sofrimento se acumulou de formas que afetam tanto a saúde física quanto a emocional. Reconhecer esse padrão é o primeiro passo para abordá-lo de forma eficaz.
Por sua vez, a figura paterna idosa também carrega expectativas não ditas dentro da família. Visto que filhos que cresceram sem intimidade emocional com o pai frequentemente não sabem como cuidar dele nas dimensões que vão além do prático. O resultado é um cuidado que garante medicamentos e consultas, mas que não alcança o que realmente está faltando: presença afetiva genuína.
Como o cuidado humanizado alcança o pai que não pede ajuda?
A chave está na abordagem indireta. Dado que o homem idoso que não fala sobre emoções muitas vezes fala sobre outros assuntos enquanto comunica suas emoções de forma codificada. O médico ou familiar que aprende a ouvir o que está nas margens da conversa, e não apenas o conteúdo central, acessa uma dimensão do sofrimento que a pergunta direta nunca alcançaria.

Para o fundador do projeto social Humaniza Sertão, doutor Yuri Silva Portela, nas ações do projeto, os homens idosos atendidos raramente chegam com queixas emocionais explícitas. Chegam com dor nas costas, com insônia, com pressão descontrolada. Mas, quando o atendimento cria espaço sem pressa, sem julgamento e com genuína curiosidade sobre como estão vivendo, algo se abre. Histórias emergem, perdas são nomeadas e o cuidado alcança dimensões que nenhum exame laboratorial teria revelado.
O que os filhos podem fazer pelo pai idoso que não pede nada?
Não esperar que ele peça. Essa é a resposta mais direta. O pai que envelheceu na cultura da autossuficiência raramente vai verbalizar que precisa de companhia, de afeto ou de ser ouvido. Mas responde a esses gestos quando eles chegam de forma natural, sem drama e sem a sensação de que está sendo tratado como frágil.
Yuri Silva Portela indica que visitas regulares sem motivo prático específico, conversas sobre sua história de vida e seus projetos atuais, interesse genuíno pelo que ele pensa sobre o mundo: essas são formas de cuidado que chegam onde os medicamentos não chegam e que têm impacto sobre a saúde emocional e física do pai idoso de maneiras profundas e duradouras.
O cuidado que o pai idoso merece começa com presença
O doutor Yuri Silva Portela acredita que cuidar do pai idoso é também uma oportunidade de construir, talvez pela primeira vez, uma intimidade afetiva que a vida corrida não permitiu antes. Aproxime-se. Pergunte. Ouça. Essa é a medicina que nenhum consultório oferece e que só a família pode dar.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez