Faturamento em alta e lucro em queda formam uma combinação que intriga muitos empresários, e a explicação, na leitura de Márcio Pires de Moraes, profissional com experiência em análise financeira e composição de custos, costuma estar em uma etapa pouco revisada da gestão. A composição de custos é o levantamento de tudo o que a empresa gasta para produzir e entregar um produto ou serviço, da matéria-prima à energia, passando por salários, aluguel e impostos. Quando o cálculo é feito de forma superficial, a margem encolhe sem que ninguém perceba o momento exato em que o problema começou.
Custos diretos, indiretos, fixos e variáveis
O primeiro passo para entender a formação da margem é separar os gastos por natureza. Custos diretos são aqueles que podem ser atribuídos a um produto específico sem esforço, como a matéria-prima de uma peça ou as horas de um técnico dedicadas a um único projeto. Custos indiretos, por outro lado, servem a várias linhas ao mesmo tempo, como o aluguel do galpão, a manutenção de máquinas compartilhadas e a equipe administrativa.
Há ainda uma segunda classificação, que considera o comportamento do gasto diante do volume. Custos variáveis crescem ou diminuem conforme a produção, enquanto os fixos permanecem estáveis dentro de certa faixa de atividade. Uma fábrica que dobra a produção dobra o consumo de insumos, mas não necessariamente o valor do aluguel. Misturar as categorias leva a projeções erradas sobre o efeito de vender mais ou menos.
Onde a margem começa a escapar?
O ponto mais sensível da composição de custos está no rateio, ou seja, na forma de distribuir os custos indiretos entre os produtos. Muitas empresas usam um critério único e simples, como dividir tudo proporcionalmente ao faturamento de cada item. O método é prático, mas pode esconder distorções relevantes.

Imagine dois produtos com o mesmo preço de venda. O primeiro sai da linha em grandes lotes e quase não exige ajustes. O segundo é feito sob encomenda, demanda várias trocas de configuração nas máquinas e consome horas da equipe comercial e de suporte. Pelo rateio proporcional ao faturamento, ambos recebem a mesma fatia de custos indiretos. Na prática, o segundo consome muito mais recursos e pode estar sendo vendido com margem negativa, subsidiado pelo primeiro, distorção que, de acordo com Márcio Pires de Moraes, aparece com frequência em empresas de portfólio diversificado.
Os sinais de uma composição de custos desatualizada
Alguns sintomas indicam que a planilha de custos deixou de refletir a operação. Um deles é o descompasso entre a margem prevista por produto e o resultado consolidado no fim do mês. Outro aparece quando a empresa reajusta preços seguidamente e, ainda assim, não recupera a rentabilidade de períodos anteriores.
Segundo a análise de Márcio Pires de Moraes, mudanças na operação raramente vêm acompanhadas de revisão na estrutura de custos. Um novo fornecedor, a adoção de turnos extras ou a ampliação do mix de produtos alteram o peso de cada gasto, mas a base de cálculo permanece a mesma por anos. O resultado é um preço definido com informações de uma empresa que já não existe.
Como transformar o cálculo em ferramenta de gestão?
A revisão periódica é o primeiro remédio. Em vez de tratar a composição de custos como tarefa feita uma única vez, vale atualizá-la sempre que houver mudança significativa em insumos, processos ou volume. Métodos como o custeio por atividades, que distribuem os custos indiretos de acordo com o consumo real de cada processo, ajudam a reduzir as distorções do rateio simples.
Outro passo envolve integrar as áreas. Produção, compras, comercial e financeiro enxergam partes diferentes do custo, e a soma dessas visões oferece um retrato mais fiel. A informação de custos, conforme pondera Márcio Pires de Moraes, só gera valor quando chega a quem decide preço, desconto e prioridade de venda.
Com dados confiáveis, a empresa passa a responder perguntas que antes ficavam no campo da intuição. Fica claro quais produtos sustentam o resultado, quais precisam de reajuste e quais talvez devam sair do portfólio. A margem deixa de sumir sem aviso porque cada parte dela passa a ter origem conhecida.