O uso de inteligência artificial nas indústrias brasileiras de maior porte saltou de 16,9% para 41,9% entre 2022 e 2024. Na perspectiva de Marcio Alaor de Araujo, executivo do mercado financeiro, o avanço mostra que a inteligência artificial na gestão deixou de ser experimento e passou a fazer parte da rotina das empresas. A tendência muda tarefas, decisões e as competências exigidas dos líderes.
Da experimentação à rotina das empresas
Segundo o levantamento do IBGE, a administração foi a área em que a inteligência artificial mais apareceu entre as indústrias que adotaram a tecnologia, seguida por comercialização e desenvolvimento de produtos e processos. O avanço recente está associado, em grande parte, à popularização das ferramentas generativas, capazes de produzir textos, resumos e análises a partir de comandos simples.
A adoção não se restringe à indústria. Bancos, varejistas, empresas de serviços e escritórios de todos os portes já usam a tecnologia para atender clientes, analisar dados, automatizar rotinas e apoiar decisões. Para muitos gestores, a questão deixou de ser se a inteligência artificial será usada e passou a ser como utilizá-la com responsabilidade.
O que a tecnologia já faz bem
Ferramentas de inteligência artificial são especialmente úteis em tarefas que envolvem grandes volumes de dados ou atividades repetitivas. Previsão de demanda, análise de crédito, identificação de fraudes, conciliação de informações financeiras e organização de documentos estão entre as aplicações mais comuns, com ganhos de tempo e de precisão em relação aos processos manuais.
Conforme explica Marcio Alaor de Araujo, o mercado financeiro foi um dos primeiros a incorporar modelos automatizados em análise de risco e detecção de operações suspeitas. A experiência do setor mostra que os melhores resultados aparecem quando a tecnologia amplia a capacidade de análise das equipes, liberando os profissionais para tarefas que exigem julgamento e relacionamento.
Os riscos de delegar decisões sem supervisão
A tecnologia também tem limites. Modelos treinados com dados históricos podem reproduzir distorções do passado, como critérios discriminatórios em processos seletivos ou na concessão de crédito. Ferramentas generativas, por sua vez, podem apresentar informações incorretas com aparência de certeza, o que exige verificação humana antes de qualquer uso relevante. Sem esse cuidado, um erro pode se espalhar rapidamente por relatórios e decisões.

Como indica Marcio Alaor de Araujo, decisões com impacto sobre pessoas, clientes ou resultados financeiros precisam manter supervisão humana. Definir quem responde por cada decisão apoiada pela tecnologia, como os resultados serão verificados e quais dados podem ser utilizados protege a empresa de erros, problemas legais e danos à reputação. A responsabilidade final, em qualquer caso, continua sendo da liderança.
Regras claras para a inteligência artificial na gestão
Muitas empresas ainda não definiram políticas sobre o uso da tecnologia, e profissionais acabam utilizando ferramentas por conta própria, às vezes inserindo informações confidenciais em plataformas externas. Estabelecer quais ferramentas são autorizadas, que dados podem ser compartilhados e como os resultados devem ser revisados reduz riscos e orienta o uso produtivo.
A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) já impõe limites ao tratamento de informações pessoais, inclusive em sistemas automatizados, e o debate sobre uma regulamentação específica para a inteligência artificial avança no país. Acompanhar a evolução das regras evita que investimentos em tecnologia precisem ser refeitos por questões de conformidade. Empresas que se antecipam ganham segurança para ampliar o uso da tecnologia.
Competências que os líderes precisam desenvolver
A difusão da inteligência artificial muda o perfil exigido dos gestores. Saber formular boas perguntas, interpretar resultados gerados por sistemas automatizados e identificar quando uma resposta não faz sentido passa a ser tão importante quanto o conhecimento técnico da própria área. Líderes também precisam conduzir equipes em processo de adaptação a novas formas de trabalho.
Na interpretação de Marcio Alaor de Araujo, a tecnologia não substitui o julgamento da liderança, mas eleva o nível de exigência sobre ele. Com análises produzidas em segundos, o diferencial passa a estar na capacidade de decidir com critério, considerar os efeitos sobre pessoas e negócios e assumir a responsabilidade pelas escolhas.