Novo filme de Davi Pretto estreia em julho e transforma IA, memória e desigualdade em debate cinematográfico urgente.
A ficção científica brasileira ganhou uma pauta forte nesta semana com a divulgação da estreia de Futuro Futuro, novo longa de Davi Pretto, marcada para 23 de julho nos cinemas. O filme mistura inteligência artificial, distopia, crise de memória, desigualdade social e uma cidade brasileira chuvosa e empobrecida para imaginar um futuro que parece distante, mas conversa diretamente com o presente. Para o espectador brasileiro, a pergunta não é apenas se vale assistir ao filme. A dúvida mais interessante é entender por que uma obra nacional de ficção científica sobre IA importa em um momento em que algoritmos, telas, automação e imagens sintéticas já influenciam a forma como vivemos e consumimos histórias. Em vez de tratar tecnologia como enfeite futurista, Futuro Futuro usa o gênero para discutir identidade, dependência digital e o lugar do cinema brasileiro em debates globais.
Por que Futuro Futuro chama atenção no cinema brasileiro?
Futuro Futuro chama atenção porque parte de um território ainda pouco explorado no cinema nacional de maior circulação: a ficção científica distópica com foco em inteligência artificial. Segundo a sinopse divulgada pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a trama acompanha K, um homem de 40 anos e sem memória, acolhido por um clickworker solitário de 60 anos em uma cidade brasileira pobre e chuvosa. Nesse futuro próximo, avanços em IA convivem com uma síndrome neurológica misteriosa, e o protagonista entra em contato com um dispositivo viciante durante um curso para pessoas afetadas pela doença. A premissa parece de ficção especulativa, mas os temas são muito reconhecíveis para quem vive em um mundo mediado por plataformas, telas e trabalho digital.
O filme também chega com trajetória de prestígio no circuito de festivais. A Mostra de São Paulo informa que a obra foi exibida no Festival de Karlovy Vary, um dos eventos internacionais mais tradicionais do calendário europeu. O Festival do Rio apresentou o longa na mostra Première Brasil: Midnight Movies, reforçando seu lugar entre obras brasileiras com proposta de gênero, risco visual e linguagem autoral. O diretor Davi Pretto já vinha de uma filmografia marcada por festivais, com títulos como Castanha, Rifle e Continente. Para o público, essa combinação cria curiosidade: é um filme brasileiro que não tenta copiar Hollywood, mas usa a ficção científica para pensar o país.
Como a inteligência artificial aparece como tema e linguagem?
A inteligência artificial em Futuro Futuro não surge apenas como ferramenta futurista ou ameaça genérica. Ela aparece ligada à memória, à percepção da realidade e à dependência de sistemas que prometem organizar a vida humana. A sinopse destaca o uso de um dispositivo de IA dentro da jornada de K, personagem que busca entender quem é em meio a uma sociedade fragmentada. Essa escolha conversa com uma ansiedade contemporânea muito concreta. Hoje, algoritmos já recomendam filmes, editam imagens, simulam vozes, organizam buscas, influenciam desejos e moldam o modo como muita gente registra lembranças.
A discussão também passa pela própria linguagem do cinema. Reportagens e críticas sobre o filme destacaram que a produção dialoga com imagens de inteligência artificial e com uma estética de distopia tecnológica, aproximando forma e conteúdo. Esse ponto é importante porque o audiovisual vive um debate intenso sobre até onde a IA pode ser usada sem apagar autoria, trabalho artístico e responsabilidade criativa. Em um filme como Futuro Futuro, o interesse está justamente em transformar essa tensão em matéria dramática. O espectador não precisa conhecer programação, machine learning ou ferramentas generativas para acompanhar a história. Basta reconhecer a sensação de viver em um mundo onde a tecnologia promete respostas, mas também aumenta confusão, solidão e desigualdade.
O que o espectador deve observar antes da estreia?
Quem pretende assistir a Futuro Futuro deve chegar esperando uma experiência diferente do modelo tradicional de ficção científica cheia de explosões, naves e grandes efeitos digitais. O longa tem 86 minutos, é brasileiro, autoral e trabalha com atmosfera, estranhamento e reflexão social. A página da Mostra de São Paulo classifica o filme como ficção e informa classificação indicativa de 12 anos. Já a página do Ingresso.com confirma a estreia em 23 de julho e descreve a obra como ficção científica. Isso ajuda o espectador a ajustar expectativas: a força do filme parece estar menos no espetáculo e mais na ideia.
Também vale observar como a obra conecta tecnologia e Brasil. Em vez de imaginar um futuro neutro ou importado, Futuro Futuro coloca a IA dentro de uma paisagem social marcada por precariedade, chuva, trabalho digital e vulnerabilidade cognitiva. Essa escolha muda tudo, porque faz a tecnologia deixar de ser apenas uma novidade sedutora. Ela passa a revelar quem tem acesso, quem fica excluído e quem paga o preço de viver em sistemas que prometem eficiência sem resolver desigualdades básicas. Para cinéfilos, o filme pode interessar pelo diálogo com distopias clássicas. Para o espectador casual, pode funcionar como uma provocação sobre a vida conectada que já estamos levando.
Futuro Futuro chega em um momento delicado para o cinema brasileiro nas salas. A Ancine apontou que, em 2026, a participação do cinema nacional no público recuou para 6,5%, sinalizando que presença em cartaz nem sempre se converte em audiência. Isso torna a estreia de um filme nacional de gênero ainda mais relevante, porque obras de ficção científica podem atrair públicos que nem sempre procuram dramas autorais brasileiros. Ao mesmo tempo, o sucesso de um lançamento assim depende de divulgação, horários acessíveis, permanência em cartaz e curiosidade do espectador. Quando uma produção nacional ousa falar de IA, futuro e desigualdade, ela amplia o repertório do público e mostra que o cinema brasileiro também pode disputar grandes temas contemporâneos.
Fontes consultadas: Tela Viva — Futuro Futuro estreia nos cinemas em julho, Mostra Internacional de Cinema de São Paulo — Futuro Futuro, Festival do Rio — Futuro Futuro, Ingresso.com — Futuro Futuro, AdoroCinema — Futuro Futuro, Ancine — Instrução Normativa sobre Cota de Tela, Ancine — Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez